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é insensato tocar com o céu nas mãos


é insensato tocar com o céu nas mãos, foto da casa

é insensato dizer que estou deprimido ou que tenho qualquer tipo de perturbação mental. é só o tempo que passa e eu não sei que lhe fazer. é só a existência que é vaga, esquizofrénicos de nós que vemos não um reflexo mas vários rostos humanos. é só a solidão da multidão, a solidão do pequeno grupo, a solidão da privacidade, a solidão de se ser humano distinto dos restantes e mais ninguém ver, como nós. é só a virtude que não é de todos, porque não chega um desafio, que multiplica-se logo por todos os seres, vezes vários. é só a carne que apodrece, ou que para não, não deixa apodrecer outras carnes. é só o reflexo de tudo, porque não se bastava ser, ainda há consequências, reflexos, peixes-espada e barbatanas. é só a depressão que se espalha por todos os humanos igualmente miseráveis que têm de viver com o que lhes dão. é só tudo, é só nada, é só uma música,um poema.
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Corre-me nas veias essa dependência



Corre-me nas veias, como a necessidade de droga corre nas veias dos toxicodependentes, ou a de tabaco nos fumadores, ou a de álcool nos alcoólicos. Corre-me nas veias em direcção ao coração, onde o prende, e me faz ser diferente do que sempre fui, do que quero ser. Começou por me acontecer sem eu o querer, e com os anos fui-me tornando num dependente.

Tudo começou quando há uns anos, comecei a não ter que fazer nem com quem falar. Passei quase uma semana em casa, fazendo muito pouco. Mal eu sabia que com os anos, dois ou três, eu me ia transformar num bicho que desistiu de buscar companhia para tudo, porque as coisas fazem-se melhor sozinhas. Tudo começou como uma dor enorme, para qual não estava preparado. Hoje, a solidão é uma necessidade minha, para me encontrar, e para ser eu.

Mesmo quando estou a dar uma volta com os meus melhores amigos, eu não estou ali. Estou num outro lugar, bem mais alto do que poderia desejar. De vez em quando venho lá de cima para intervir cá em baixo, quando há uma conversa interessante... Já tinha falado sobre a importância da solidão para o conhecimento e para o auto-conhecimento, e de facto a solidão, segundo essa perspectiva, faz-me bem. Mas por vezes pergunto-me se me fará muito bem à saúde mental.
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O insustentável peso da solidão





Milan Kundera escreveu em tempos A insustentável leveza do ser. Com muita pena minha, ainda não li essa obra-prima, mas tenciono, depois de acabar de ler o belíssimo A vida não é Aqui. Não sei, por isso, o significado deste título. Eu consigo retirar, no entanto, uma interpretação deste título, que não sei se está de acordo com a obra de Kundera, mas também não tem esse objectivo.

O ser é algo simples. Não tem explicação, nem motivo. É algo imensamente confuso. É algo que não conseguimos explicar ou entender. A existência é algo sobre o qual podemos supor diversas coisas, mas sobre a qual não podemos ter quaisquer certezas. É, por isso, insustentável para nós que a existência seja tão simples. Queremos a todo o custo tentar explicá-la. «Eu sou», «Eu existo»: o que é isto? Eu penso que a existência é algo extremamente simples. Simplesmente existe-se. Todo este Universo existe simplesmente, sem explicação para nós. É insustentável para nós que tudo isto exista sem motivo, ou que pelo menos, não o consiguemos explicar. Ser é bem mais simples do que parece, mas nós tentamos a todo o custo complicar essa simplicidade.

Quando estamos sozinhos nada nos separa da mais complexa face da reflexão, e por isso reflectimos sobre as mais diversas coisas, nos mais diversos níveis de intensidade. Pensamos em todas as nossas responsabilidades, todas os nossos direitos, todas as nossas acções, sentimentos, desejos. Temos um trabalho reflexivo tão intenso, como o brilho do Sol às 12 horas do dia mais quente do ano. Temos de digerir todas essas novas dimensões dos nossos pensamentos sozinhos, vulneráveis a todas os perigos que eles trazem. Quando estamos sozinhos, perdemos a simplicidade do nosso ser. E essa leve existência traz-nos, quando entramos nas mais profundas dimensões da reflexão, um peso insustentável.

Por isso, se vivêssemos menos tempo sozinhos, e mais tempo acompanhado por algo ou alguém, seríamos mais felizes, mais saudáveis, mais leves.

Não me entendam mal: não estou a criticar a solidão, estou simplesmente a dizer que ela é inimiga da felicidade. Mas é importantíssima para o desenvolvimento do intelecto e do nosso próprio ser. E assim, nós, estando sozinhos, roubamos ao ser a sua leveza. Queremos ser inteligentes, astutos, sábios. Queremos explicar a existência, e só através da solidão o podemos fazer. Fugimos à beleza, à simplicidade e à insustentável leveza da vida.

(repito que não li o livro em questão, apenas usei o seu título como base para escrever este texto)

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